Desigualdade no mercado de trabalho, pandemia e práticas sociais

A pandemia se instaurou e promoveu o afastamento de mulheres das suas ocupações, especialmente com relação a atividades informais e de limpeza doméstica. As pessoas, preocupadas com a própria saúde e a saúde de suas assistentes, acabaram solicitando a suspensão das visitas dedicadas a limpeza dos domicílios.
Essa interrupção não prevê, necessariamente, a continuidade na remuneração das diaristas. Algumas enquetes feitas pontualmente mostram que algumas pessoas chegaram a remunerar metade do valor. Outras combinaram o abatimento posterior para que não saíssem financeiramente prejudicadas.
O cenário descrito acima afeta diretamente a capacidade de subsistência de uma parcela significativa de mulheres. Infelizmente, as mulheres ainda são maioria quando o assunto é trabalho informal.
Uma publicação recente (de janeiro de 2020) da Organização Mundial do Trabalho chama a atenção para a ampliação do acesso a melhores condições e oportunidades de emprego para mulheres, negr@s e outros grupos minoritários, caso as nações queiram acelerar o desenvolvimento econômico. Veja o trecho:
Uma condição para que o crescimento econômico dos países se traduza em menos pobreza e maior bem-estar e justiça social é melhorar a situação relativa das mulheres, negros e outros grupos discriminados da sociedade e aumentar sua possibilidade e acesso a empregos capazes de garantir uma vida digna para si próprios e suas famílias (Fonte: Organização Mundial do Trabalho).
Agora, reflitam: uma mulher que trabalha como doméstica não possui outras possibilidades de rápida recolocação da atividade econômica para compensar a falta de remuneração da sua costumeira fonte de renda.
Além deste problema, ainda luta para acomodar um volume ainda maior de responsabilidades que envolvem desde os cuidados com o lar até os cuidados com os demais residentes da casa. Veja os dados que corroboram essa análise:
A quase totalidade (92,6%) da população brasileira feminina de 14 anos ou mais, que representa mais de 80 milhões de pessoas, realiza afazeres domésticos e cuidados de pessoas, em uma média de 21 horas semanais, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), referente ao quarto trimestre de 2018 (Fonte: Agência IBGE Notícias).
Essa realidade contribui para a permanência das mulheres em situação de desigualdade em relação aos homens. Isso porquê o tempo é um recurso escasso e, quando ocupado por atividades que não desenvolvem o aspecto cognitivo, acabam gerando um ciclo vicioso de dependência e estagnação.
E, apesar de estarmos em 20% menos empregos e com 20% menor salário em comparação a um colega do sexo masculino no mesmo cargo, as mulheres são melhor preparadas e mais dedicadas para competir neste cenário brutalmente desigual.
Não obstante, mesmo quando mulheres vencem diversas das barreiras anteriormente descritas, contratam outra mulher para substitui-la em casa, nas tarefas domésticas. Dentro de um universo de mais de 6,2 milhões de pessoas empregadas como trabalhadores domésticos, 4,5 milhões (94,1%) são mulheres (PNAD Contínua). E a diferença salarial também aqui reside, mesmo sendo um setor dominada por mulheres:
A maior parte dos trabalhadores domésticos ainda trabalha sem carteira assinada e recebe, em média, R$740,00, valor abaixo do salário mínimo nacional, de R$998,00. Já a média salarial do trabalho com carteira assinada sobe para R$1.245,00. O salário também varia quando se faz o recorte por gênero: enquanto a média salarial dos 280 mil homens que desempenhavam a função de trabalhador doméstico foi de R$1.019,61 no último trimestre de 2018, a das mulheres ficou em R$846,12 (Fonte: Agência IBGE Notícias).
Como mudar nossas práticas sociais para surtir efeito, ao longo do tempo, neste cenário? Não tenho a resposta, mas acredito que a sororidade seja um bom caminho. A parceria entre mulheres deve ser cada vez maior para que possamos nos apoiar nesta conquista por novos e melhores lugares na sociedade. Nada mais justo, concorda? 
Para finalizar, uma mensagem: o mundo é colorido e o respeito deve sempre prevalecer. 
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Crédito: Freepik.com/psodaz.

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