O limite da misandria: até que ponto a estratégia do opressor é útil para imposição de novas abordagens sociais?

Em seu livro "Pedagogia do Oprimido" (1987), Paulo Freire explica que a libertação dos oprimidos se dá pelos próprios. Do contrário, quem antes era oprimido, mas por alguma razão conseguiu se livrar dos rótulos, assume a nova posição social ainda mais impiedoso do que todos aqueles que o fizeram sofrer no passado.

Por isso, ao assistir a estupenda abertura da sétima temporada de Scandal - assisti especificamente dois primeiros episódios da sétima e última temporada disponibilizada até o momento no Netflix -, eu fiquei me perguntando: após tomar o poder, até que ponto devemos sujar as nossas mãos para impor uma nova rota, uma nova abordagem?

A pergunta é simples, mas a resposta pode ser infinitamente complexa. A essa altura, Mellie Grant e Olivia Pope assumem os dois mais alto postos do governo americano - presidente e chefe de gabinete, respectivamente. Dentro do enredo, apesar de imprimir uma nova abordagem política arquitetada juntamente com a presidente Mellie Grant, a protagonista Olivia Pope engendra uma série de ações um tanto quanto duvidosas dentro da nova proposta apresentada por ela mesma.

Em contrapartida, até que aprendam a jogar o jogo justo e ético da nova composição política, os homens precisam aceitar a imposição e postura das novas líderes mulheres. Para tanto, se não no amor, há de ser na dor. 

Isso fica muito claro para mim quando rememoro as entrevistas em profundidade com vereadoras que fiz para a minha dissertação, na ocasião do mestrado. Lembro como era unânime a necessidade de impor posturas firmes e impassíveis para serem respeitadas dentro das casas legislativas municipais. 

Então, agora parece que a resposta vem naturalmente. Não se trata de combater misoginia com misandria, mas sim de se fazer respeitar antes de influenciar a dinâmica do ambiente profissional e público sob a sua gestão. Em outras palavras, se por um tempo houver a necessidade de ser impassível e dura, seja para não perder a oportunidade de mudar tal ambiente. Após a aceitação, vem a possibilidade de empreender uma postura mais autêntica que possa servir de inspiração para modelos diversos de abordagem social.

Continuemos fazendo a nossa parte, todos os dias.

Fonte: FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

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