O efeito subversivo da sororidade: a circunscrição da responsabilidade doméstica

Antes de mais nada, gostaria de compartilhar um trecho explicativo sobre a ideia de sororidade dentro do movimento feminista:

Sororidade: conceito que acaba com todos os preconceitos segundo os quais as mulheres não conseguem ser amigas, que são rivais entre si por natureza ou que são mais cruéis entre elas. Nos anos 70, a escritora norte-americana Kate Millett cunhou o termo sisterhood e depois disso as feministas francesas começaram a usar sororité. Atualmente, a antropóloga e política mexicana Marcela Lagarde, uma das maiores divulgadoras do conceito em língua espanhola, o define como “o apoio recíproco entre as mulheres para se conseguir o poder para todas” (Clara Ferrero, 2017).

Agora, ainda outro dia, lendo um artigo publicado em um dos portais feministas presentes atualmente na internet, me deparei com uma análise discursiva acerca de práticas de sororidade entre mulheres negras.

Uma mulher, vítima de violência doméstica, explica que cuida dos filhos do relacionamento anterior do marido, pois caso ela morresse ou ele a deixasse, gostaria que os filhos dela não sofressem as consequências. 

Aqui, duas hipóteses se apresentam: a entrevistada faz isso em solidariedade a outra mulher, independentemente do motivo pelo qual tenha saído de cena. Ou, ainda, ela faz isso pelo homem, acumulando cuidados aos filhos que são somente dele.

Na argumentação apresentada no artigo, a autora parece promover a prática social acima sob o rótulo da sororidade. O que faz sentido se a primeira hipótese supracitada for verdadeira. Mas, o que me deixou confusa é o fato de que, em hipótese ou momento algum, a responsabilização do cuidado com os filhos recai sobre o homem. E isso independe de classe social, basta olhar ao redor.




Nesse caso em específico, a sororidade pode trazer um efeito subversivo que apaga ou diminui a responsabilidade do homem sobre a esfera doméstica e familiar. Tal efeito não beneficia a mulher, mas a mantém vítima de atribuições que a afasta das possibilidades de se libertar da condição subalterna em que vive.

Em um outro contexto, a frase "meu marido me ajuda nas tarefas domésticas", traz o sujeito oculto responsável pelas tarefas domésticas que, no caso, seria a mulher que a pronuncia. Nessa construção frasal, há tanto uma forte identificação, quanto uma falta de entendimento do poder discursivo que esse argumento pode trazer, bem como os seus impactos sobre a construção da expectativa social em si.

Em outras palavras, enquanto a mulher continuar vivendo em função de pautas domésticas, sem ir ao encontro de sua libertação cognitiva, financeira e social, lhe restará apenas levar a vida endereçada a ela antes mesmo do seu nascimento. E, atenção, se for abrir mão de toda essa liberdade, você precisa conhecer aquilo que está abrindo mão para então decidir de maneira consciente. Do contrário, o discurso de "escolhemos essa hierarquia em casa, pois faz sentido para nós" soa um tanto impositivo e extremamente machista.

À título de consideração final, para que essas expectativas sociais sejam alteradas, há a latente necessidade de continuarmos com as nossas práticas feministas todos os dias. Em um ato por dia capaz de influenciar a realidade que compartilhamos. Vamos nessa! #atuemulher

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