Um convite aos jogos

Respeito mútuo, cooperação, honestidade e justiça são alguns valores fundamentais ao bom convívio e devem ser estimulados desde cedo, na formação inicial das crianças. Quando não estimulados, sua ausência tende ferir o terreno do comum, ou seja, o espaço que compartilhamos com o outro.
Os valores citados acima vão de encontro com os conflitos observados nos jogos online. Você compartilha partidas com desconhecidos que, na maior parte das vezes, não merecem ser tratados com respeito ou justiça. Você não se preocupa em cooperar ou ser honesto com quem não conhece. E este, talvez, seja um dos maiores problemas da competência humana: a interação empática com o outro.
De outro modo, se o random quebra tais premissas básicas da boa convivência, você é levado a agir de acordo com o tom ditado pelo mau educado da vez. O problema desta reciprocidade negativa é o ciclo vicioso que se estabelece: você responde à altura, mas acaba contribuindo para inflar, ainda mais, a bolha de assédios e má conduta usuais hoje na internet.

O ponto nefrálgico de tudo isso é o convite que a educação vem apresentando aos jogos, com o argumento de que o ambiente gamer pode ser fomentador de competência relacional. Mas, tal competência não se encontra em estágio maduro o suficiente em nenhum meio de comunicação.
Esta maturidade está diretamente relacionada com a deficiência crítica das pessoas. No tocante aos meios de comunicação tradicionais (televisão, mídia impressa e rádio), algumas vertentes teóricas da educação buscam livrar a mídia da mera função, fácil e barata, do entretenimento. 
A Educomunicação, por exemplo surge como uma proposta político-pedagógica que une a mídia com a educação. Esta união busca introduzir a comunidade, alunos e profissionais em direção a produção de conteúdo relevante para a respectiva comunidade. Ou seja, em parceria com profissionais e outras pessoas da comunidade, crianças e adolescentes podem fazer reportagens televisivas, radiofônicas e também para jornais impressos.
Conheça os repórteres mirins do programa Pedal Canal, no Youtube: https://www.youtube.com/user/programapedal
A ideia de comunidade, aqui, engloba a família, amigos, e outros grupos sociais que rondam os alunos e a escola. Seria, portanto, inverter a ordem de educação: não se espera que a família construa o caráter social da criança e do adolescente, mas sim, ao trazer todos os atores, a proposta educomunicativa acaba fomentando esses valores e essa postura crítica com base na convivência e conscientização dos processos midiáticos. E é justamente este desenvolvimento que precisamos.
O jogo, por sua vez, traria o potencial de interação no espaço online. Seria, portanto, a virtualização da convivência. O conceito de virtualização trazido aqui diz respeito à definição de Pierre Levy, em seu livro "O que é o virtual?" (2011). A virtualização, segundo o autor, seria a possibilidade latente de determinada coisa. Há, na internet, a possibilidade de interagir com o outro: há a virtualização da interação. E esta interação pode ser virtualmente boa e construtiva, depende de nós.
[...] não é a técnica que move a história, mas a consciência dos indivíduos, que, utilizando-se da técnica, produz modificações historicamente visíveis (Renato Veloso, Tecnologias da Informação e da Comunicação, 2012).
Em linhas gerais, não podemos esperar que os conflitos se resolvam sozinhos, ou pior, esperar uma atitude dos outros. Comece por você mesmo, seja um dos autores da história de transformação social que queremos ver no mundo! 👮


👉 Para se aprofundar em Educomunicação, leia:
  • SOARES, Ismar de Oliveira. Educomunicação - O Conceito, o profissional: A aplicação: contribuições para a reforma do ensino médio. Paulinas, 2012.
  • MARTÍN-BARBERO, Jesús. Desafios culturais: da comunicação à educomunicação. IN: CITELLI, Adilson Odair; COSTA, Maria Cristina Castilho (orgs.). Educomunicação: construindo uma nova área de conhecimento. São Paulo, Paulinas, 2011, pp. 121-134.
  • OROZCO-GÓMEZ, Guillermo. Comunicação, educação e novas tecnologias: tríade do século XXI. IN: CITELLI, Adilson Odair; COSTA, Maria Cristina Castilho (orgs.). Educomunicação: construindo uma nova área de conhecimento. São Paulo: Paulinas, 2011, pp. 1159-174. 

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